Reverberações das experiências extramurais no ensino da Odontologia

Patricia Ferreira de Sousa Viana, Shara Jane Holanda Costa Adad, José Ivo dos Santos Pedrosa

Resumo


Introdução: O perfil do cirurgião‑dentista, eminentemente técnico, resulta de uma formação voltada à clínica dentária – cosmética e descontextualizada. Nesse cenário, surgem as Diretrizes Curriculares Nacionais, as quais trazem em seu bojo, dentre outras recomendações, a ampliação dos espaços de ensino‑aprendizagem com base em cenários reais de prática, possibilitando experiências concretas na realidade social. Objetivo: Identificar, nas oportunidades pedagógicas propostas pelo curso, aspectos capazes de influenciar transformações no processo de ensino‑aprendizagem em Odontologia. Métodos: Trata‑se de um estudo qualitativo, descritivo e com abordagem sociopoética para a produção e análise dos dados. Participaram do estudo graduandos em Odontologia inseridos em atividades pedagógicas extramurais. Quatro oficinas sociopoéticas foram realizadas e serviram de instrumento para o desenvolvimento de narrativas sobre as experiências de ensino‑aprendizagem. Resultados: Três linhas de pensamentos emergiram a partir da análise sociopoética dos dados: tempo para viver as experiências de ensino‑aprendizado; coexistência de novas e velhas abordagens pedagógicas e desafios decorrentes dos projetos de mudanças. Conclusão: A despeito dos desafios enfrentados, admite‑se a importância dos extramuros, curriculares ou não, no ensino odontológico. Tais vivências levam os alunos a compartilharem o espaço das práticas no Sistema Único de Saúde com outros atores; assim, ao transitarem pelo mundo do trabalho e do ensino, eles criam um modelo mental de seu processo de ensino‑aprendizagem, influenciado pelos referenciais teóricos, pelas oportunidades de vivências no campo das práticas e pelos interesses individuais. Esses elementos interferem e ampliam a percepção de si e do mundo, na medida em que percorrem o caminho da formação, construindo um trajeto singular.


Palavras-chave


ensino; aprendizagem; educação em saúde; odontologia.

Texto completo:

PDF

Referências


Morita MC, Haddad AE, Araújo ME. Perfil atual e tendências do cirurgião‑dentista brasileiro. Maringá: Dental Press; 2010.

Warmling CM, Marzola NR, Botazzo C. Da autonomia da boca: práticas curriculares e identidade profissional na emergência do ensino brasileiro da odontologia. Hist Cienc Saúde‑Manguinhos. 2012;19(1):181‑95. http://dx.doi.org/10.1590/S0104‑59702012000100010

Emmerich A, Castiel LD. Lagarto e a rosa no asfalto: odontologia dos desejos e das vaidades. In: Botazzo C. De lagartos e rosas. Rio de Janeiro: Fiocruz; 2013.

Moura MS, Ferro FE, Cunha NL, Sousa Nétto OB, Lima MD, Moura LF. Saúde bucal na Estratégia de Saúde da Família em um colegiado gestor regional do estado do Piauí. Ciênc Saúde Coletiva. 2013;18(2):471‑80. http://dx.doi.org/10.1590/S1413‑81232013000200018

Brasil. Ministério da Educação. Parecer CNE/CES nº 1.300/2001. Diário Oficial da União. Brasília; 2001; p. 25.

Silveira JL. Diretrizes curriculares nacionais para os cursos de graduação em odontologia: historicidade, legalidade e legitimidade. Pesq Bras Odontoped Clin Integr. 2004;4(2):151‑6.

Associação Brasileira de Ensino Odontológico (ABENO). Diretrizes da ABENO para a definição do estágio supervisionado nos cursos de Odontologia. Rev ABENO. 2002;2(1):31.

Brasil. Presidência da República: Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei 11. 788, de 25 de setembro de 2008. Brasília; 2008.

Campos FE, Ferreira JR, Feuerwerker L, Sena RR, Campos JJ, Cordeiro H, et al. Caminhos para aproximar a formação de profissionais de saúde das necessidades da Atenção Básica. Rev

Bras Educ Med. 2001;25(2):52‑9.

Brasil. Ministério da Saúde. Ministério da Educação. Programa Nacional de Reorientação da Formação Profissional em Saúde – Pró‑Saúde: objetivos, implementação e desenvolvimento potencial. Brasília: Ministério da Saúde; 2007.

Pedrosa JIS, Lustosa AF. Trilhas da interdisciplinaridade: a experiência da instituição do projeto ensino em saúde na UFPI. In: Barros Júnior FO, Almeida MG, Barbosa VR, Figueirêdo EB. Ensino na Saúde: outras palavras. Brasília: Verbis; 2012. p. 11‑39.

Minayo MC. O desafio do conhecimento: pesquisa qualitativa em saúde. 12ª ed. São Paulo: Hucitec; 2010.

Santos MC. Páginas Sociopoéticas: deslizando nas ideias e nos conceitos de jovens sobre leitura Tese (Mestrado) – Universidade Federal do Piauí, Teresina; 2013.

Adad SJ. A sociopoética e os cinco princípios: a filosofia dos corpos misturados na pesquisa em educação. In: Adad SJ, Petit SH, Santos I, Gauthier J. Tudo que não inventamos é falso: dispositivos artísticos para pesquisar, ensinar e aprender com a sociopoética. Fortaleza: UECE; 2014. p. 41‑59.

Gauthier J. O oco do vento: metodologia da pesquisa sociopoética e estudos transculturais. Curitiba: CRV; 2012.

Feuerwerker LC, Sena RR. Contribuição ao movimento de mudança na formação profissional em saúde: uma avaliação das experiências UNI. Interface. 2002;6(10):37‑50. http://dx.doi.org/10.1590/S1414‑32832002000100004

Ministério da Educação. Universidade Federal do Piauí. Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI): 2015‑2019. Teresina: EDUFPI; 2015.

Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução CNE/CES 3/2002. Diário Oficial da União, Brasília:

p. 10.

Serres M. Polegarzinha: uma nova forma de viver em harmonia, de pensar as instituições, de ser e de saber. Rio de Janeiro: Bertrand

Brasil; 2013.

Perrenoud P. Construir as competências desde a escola. Porto Alegre: Artes Médicas Sul; 1999.

Foucault M, Deleuze G. Os intelectuais e o poder. In: Foucault M. Microfísica do poder. 25ª ed. São Paulo: Graal; 2012.

Capozzolo AA, Inbrizi JM, Liberman F, Mendes R. Formação descentrada na experiência. In: Capozzolo AA, Casetto SJ, Henz AO. Clínica Comum: itinerários de uma formação em saúde. São Paulo: Hucitec; 2013. p. 124‑50.

Bulgarelli AF, Souza KR, Baumgarten A, Souza JM, Rosing CK, Toassi RF. Formação em saúde com vivência no Sistema Único de Saúde (SUS): percepções de estudantes do curso de Odontologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Brasil. Interface. 2014;18(49):351‑62. http://dx.doi.org/10.1590/1807‑57622013.0583

, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Curso de Especialização em Docência na Saúde. O protagonismo docente diante dos compromissos da formação com o SUS. Porto Alegre: Educa Saúde; 2014.

Tavares CM. Análise crítica de uma experiência de integração do estágio de enfermagem em saúde mental ao Sistema Único de Saúde. Esc Anna Nery R Enferm. 2006;10(4):740‑7.

Barreto VH, Monteiro RO, Magalhães GS, Almeida RC, Souza LN. Papel do preceptor da atenção primária em saúde na formação da graduação e pós‑graduação da Universidade Federal de Pernambuco – um termo de referência. Rev Bras Educ Med. 2011;35(4):578‑83. http://dx.doi.org/10.1590/S0100‑55022011000400019

Trajman A, Assunção N, Venturi M, Tobias D, Toschi W, Bran V. A preceptoria na rede básica da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro: opinião dos profissionais de Saúde. Rev Bras Educ Med. 2009;33(1):24‑32. http://dx.doi.org/10.1590/S0100‑55022009000100004

Freire P. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 1996.

Abreu ML, Carvalho RM. Pelos trilhos da Odontologia. Disponível em: http://pelostrilhosdaodonto.blogspot.com.br/. Acesso em: 28 set. 2015.

Centro de Ciências da Saúde. Departamento de Patologia e Clínica Odontológica. Manual de Orientação dos Estágios Supervisionados Extramuros II, III e IV. Teresina: Universidade Federal do Piauí; 2014.

Pedrosa JI. Iniciação às práticas de saúde: bricolagem na seleção de conteúdos. Rev Bras Educ Med. 2013;37(3):408‑17. http://dx.doi.org/10.1590/S0100‑55022013000300013

Capozzolo AA, Casetto SJ, Henz AO, Kinoshita RT. Movimentos de constituição do eixo trabalho em saúde. In: Capozzolo AA, Casetto SJ, Henz AO. Clínica comum: itinerários de uma formação em saúde. São Paulo: Hucitec; 2013. p. 69‑111.

Morita MC, Kriger L. Mudanças nos cursos de Odontologia e a interação com o SUS. Rev Abeno. 2004;4(1):17‑21.

Araújo ME. Palavras e silêncios na educação superior em odontologia. Ciênc Saúde Coletiva. 2006;11(1):179‑82. http://dx.doi.org/10.1590/S1413‑81232006000100026




DOI: https://doi.org/10.7322/abcshs.v40i3.794

Apontamentos

  • Não há apontamentos.


Direitos autorais 2015 Patricia Ferreira de Sousa Viana, Shara Jane Holanda Costa Adad, José Ivo dos Santos Pedrosa

Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma licença Creative Commons Atribuição - NãoComercial 4.0 Internacional.